segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Porta-malas - por Fabiana Campagna


Segue mais um texto enviado pela Fabiana Campagna. Achei muito legal a metáfora do porta-malas. O perfil dela está em post anterior "não sei brincar de bonecas". Obrigada Fabi por mais esta colaboração.

Hoje constatei que o porta-malas do meu carro é a manifestação do meu estado interior. De como ando me sentindo... E não adianta. Não consigo andar com ele vazio. Por mais que eu deseje isso, não consigo. E isso tem me intrigado.

Eu olho aquele compartimento enorme, cheio de coisas atulhadas, fazendo peso, roupas para costureira, sapatos pra mandar ao sapateiro, uma webcam pra instalar no notebook, semanas e mais semanas andando comigo e fico mal. Que capacidade que tenho de deixar coisas paradas em um canto, sem uso ou um fim! (Ou um começo!)
Já tentei tirar tudo que tenho lá dentro, mas a limpeza não dura um dia e já enfio outra tralha no lugar. Aí é que vem a tal da manifestação de que falei no início deste texto: eu ando cheia e preciso do vazio, da minha cabeça limpa, do corpo leve, das emoções soltas. Preciso tirar do meu porta-malas a seriedade com que olho pra tudo. A preocupação com o que vem depois e uma culpa sei lá do que gravada no meu cérebro.

Eu percebo, em mim, que os espaços vazios são difíceis de acontecer. Acordo, tomo banho, café, filha, colégio, trabalho, casa, almoço, relacionamento, exercício físico, janta, cama. Cada coisa parece representar um objeto jogado lá dentro. E quando me dou conta o tal do porta-malas nem sequer fecha mais! Aí começo a ocupar o banco traseiro do carro. Sim, porque ali ainda cabe a ligação que eu devo retornar a uma amiga, o dinheiro que nunca parece o suficiente, o negócio que não fechei, um prazo que não cumpri, a culpa por comprar uma roupa que não precisava – afinal de contas ainda tenho aquela para mandar a costureira. E assim acabo não enxergando mais o vidro traseiro do carro pelo espelho retrovisor. Não dá. Não há espaço.
Mas eu tomei uma decisão: prometo que vou tentar não carregar nada além do necessário para ir e vir, livre. Vou trocar meu carro por uma moto.

2 comentários:

Daniel Hiver disse...

Gostei também do texto da Fabiana. Fiquei aqui pensando que somos de guardar coisas dentro da agenda, nos bolsos, no porta-luvas, no porta-malas. E nas gavetas então? E aquelas empoeiradas caixas de papelão no sótão e, em alguns casos, em cima do guarda-roupa?
Nunca somos capazes de explicar para nós mesmos por que fazemos isso. E o que é pior, as vezes nem paramos para um questionamento mais sério. O pior de tudo são essas quinquilharias ( esses pensamentos recorrentes ) que deveríamos esquecer, mas que estão sempre voltando. Então deveríamos mesmo nos livrar dessas gavetas abarrotadas de coisas que não tem nada a ver mas que invariavelmente voltam...

Quanto ao poema Pai, realmente precisou coragem. Talez mais para escrever do que publicar. Ele toca mesmo em pontos bem sensíveis.

Obrigado!

Claudia Bins (Cacau) disse...

POis é, as vezes é bem difícil mesmo a gente criar espaços ... tão mais fácil acumular entulhos kkkk!

Eu consegui dar um passinho simples mas eficiente... só entra coisa nova quando sai uma velha... e ponto! Só não vale para gente né? Só coisas...

Beijo,

Cacau