terça-feira, 8 de setembro de 2009

Ensaio sobre a Cegueira

Minha amiga Maria Augusta Menz escreveu um artigo muito legal comentando o livro/filme Ensaio sobre a Cegueira do Saramago e comparando com a atividade do Promotor de Justiça. Mas a análise é válida para todas as profissões que lidam com pessoas. Então com a concordância dela, estou postando o artigo aqui para que todos tenham a oportundiade de ler e refletir sobre ele. O artigo foi publicado no Jornal O sul de domingo. Parabéns, Guta pelo excelente texto!

E a nossa cegueira? - Maria Augusta Menz, Promotora de Justiça

Para mim, na condição de leiga, um dos maiores méritos de um filme, o que o qualifica como excelente, é o impacto que ele é capaz de causar. O mesmo posso dizer de um livro.
Nutria por José Saramago e seus livros um sentimento oscilante, já que, confesso minha estupidez, após devorar o “Evangelho de Jesus Cristo” – que adorei - abandonei inacabados todos os demais livros deste autor por achá-los um tanto enfadonhos. O “Ensaio sobre a Cegueira”, por outros motivos, também foi um dos abandonados, primeiro pois não fui capaz de atravessar a cena dos estupros coletivos, segundo pela carga emocional crescente de desespero e horror que o autor, magistralmente, conseguiu imprimir.
Assistindo a “Blindness”, o filme de Meirelles, fui capaz de acompanhar a narrativa até o final. O filme é excelente! A cegueira, uma metáfora da dificuldade que temos em ver o outro, da indiferença pelo nosso semelhante, no filme e no livro nivela e despoja todos os seres humanos, remetendo-os à condição original de recém-nascidos em um mundo sem visão, onde deixam de fazer sentido os papéis que cada um desempenha na sociedade, e todos tateiam, desesperados, desconhecendo os caminhos e os signos desta nova condição.
Somos remetidos a uma reflexão profunda sobre a condição humana, sobre as decisões e opções que o homem - como ser social, como indivíduo – ao ser confrontado com uma grave situação de crise, tem e toma, como se organizam os grupos e como se divide o poder.
Em contraponto à cegueira, temos a situação da única pessoa que não perde a visão, e as habilidades do cego de nascença, personagens que nos fazem pensar sobre o uso do poder e a forma como pode ser utilizado como instrumento para o bem e para o mal.
Ou seja, o filme, o livro muito mais, é ótimo pois causa profundo impacto e faz refletir, em diversos aspectos e ângulos.
Trazendo o tema para nossa atuação no Ministério Público podemos nos questionar até que ponto enxergamos realmente o ser humano por trás do processo, do conjunto maçante de papel que atravanca nossas escrivaninhas. Será que somos capazes de ver o indivíduo real, suas angústias, suas dores, o caminho que percorreu até chegar a nós, com suas reivindicações, seus litígios? Corremos o risco de esquecer o homem, a mulher ou a criança destinatária de nosso trabalho, diante da imensidão de afazeres e do afã de cumprir prazos, frente à rotina estafante. Corremos o risco da cegueira.
Outra abordagem interessante para que possamos fazer uma reflexão sobre nossa atuação como Promotores e Procuradores de Justiça está em questionar o que fazemos com o poder que nos é dado em nossa atividade. Agimos para o bem da sociedade, ou muitas vezes nos deixamos levar por nossas vaidades e interesses pessoais, atuando, se não para o mal, para fins que não são os melhores e os mais elevados? Certamente não podemos deixar de fazer esta pergunta.
Questionar criticamente nossa atuação diária, por melhor que seja, é um exercício saudável de depuração e de aprimoramento pessoal e profissional que, certamente, nos livrará da cegueira sobre nós mesmos e sobre os demais, nos mantendo sempre atentos e de olhos bem abertos, colocando em xeque a imagem de Minerva como a deusa cega da Justiça. A Justiça não pode ser cega e nós, como Promotores de Justiça, não podemos compactuar com a cegueira, mas, para tanto, temos que, primeiro, ser capazes de impedir que a venda venha a cobrir nossos olhos.

5 comentários:

Claudia Bins (Cacau) disse...

Excelente texto, mesmo, Ângela! Muito apropriado e concordo com vc que diz respeito a todos que lidam com o público. E pergunto, não lidamos todos? De uma maneira ou de outra, todos interagimos, seja com colegas, clientes, amigos, família e muitas vezes não conseguimos ultrapassar a barreira do Eu, ficando "cegos" para enxergar o outro de verdade... olhamos sem ver.

Excelente reflexão, obrigada por compatilhá-la aqui!

Bj,

Claudia

Velejando nas Letras disse...

Angela,

Ótimo post, parabéns! É para ler e reler muitas vezes. Felizmente nunca sofri decepção ao largo das minhas experiências, como parte, em angustiantes pendências judiciais. Acho que tive a sorte de encontrar outras Marias Augustas Menz no meu caminho. Bjs
Angela

Velejando nas Letras disse...

Bom dia Angela!
O seu blog agora faz parte da lista dos recomendados por mim em Velejando nas Letras. Abraço,
Angela

Angela Dal Pos - Morena de Pintas disse...

Meninas, que bela contribuição. A Guta (Maria Augusta) vai ficar super feliz com a repercução do seu artigo. Obrigada.
bjs

Velejando nas Letras disse...

Angela,

Pensei ontem pela manhã em escrever sobre a Bienal do Livro aqui do Rio de Janeiro. Providenciarei neste final de semana um post sobre o assunto. Obrigada pela excelente dica! Abraços,

Angela