quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Falando sério

Esse texto eu escrevi em função do meu trabalho e da revolta que dá pela pilantragem que a gente vê no dia a dia e que desanimam qualquer um. Isso que, quando escrevi, ainda não tinha sido apresentada a ação civil pública por improbidade do MPF contra a governadora e outros políticos de peso aqui no RS. Mas é só trocar senado por governo estadual e o sentido permanece o mesmo. Boa reflexão!

Quanto mais conheço os homens mais admiro os animais


Essa celebre frase, atribuída a Herculano, reflete bem o sentimento de indignação que nos assola quando nos deparamos com pessoas que tentam tirar vantagem à custa alheia. Nosso país está cheio de exemplos. Os mais recentes trazem o Senado como palco de uma série de falcatruas não explicadas, farra das passagens aéreas e deputado dono de castelo.
Tem mais.
Só para lembrar, ano passado, revoltamo-nos com os espertinhos que se aproveitavam da solidariedade alheia na tragédia da enchente em Santa Catarina, furtando e desviando os donativos dos centros de distribuição. Imagens flagraram soldados do exército e voluntários saindo com as mochilas recheadas, passando a perna em toda uma população bem intencionada que se engajou na mobilização nacional. Outras cenas mostraram um mercado saqueado e pessoas vendendo água mineral a preços exorbitantes, aproveitando-se da escassez de água potável.
Outro exemplo: Dois malotes do Banco Banese de Aracaju, em Sergipe, caíram de um avião tempos atrás e, para completar o inusitado da situação, apenas um malote foi encontrado por um senhor desempregado, de 65 anos, que, como só ia acontecer num caso desses, estava amarrando seu burro num terreno baldio, quando encontrou o malote contendo R$95 mil. Mais. O senhor devolveu o dinheiro na Delegacia de Polícia, que foi restituído ao banco. O outro malote não foi localizado.
A par da discussão se “dinheiro cai ou não do céu”, que a notícia ensejou, levantando suspeitas se foi acidente ou proposital, o que mais se discutia nas ruas de Aracaju era a atitude do Sr. João Jacinto Ferreira em devolver o dinheiro. Inúmeras pessoas criticavam-no, chamando-o de “otário”, “burro”, por ter devolvido, ao invés de se apropriar dele e sumir.
Espera aí, só um pouquinho! Honestidade não vale mais nada nesse país? Quem é honesto é taxado de “otário” e de “burro”? Certamente os que pensam assim são os mesmos que usam a cota de passagens para os amigos, furtam os donativos dos necessitados, saqueiam supermercados sem vigilância.
Eu gostaria de entender em que ponto a humanidade se perdeu, e a total ausência de valores passou a gerir os comportamentos. Prolifera uma minoria de mentalidade contaminada, que busca levar vantagem em tudo e ri da cara dos honestos. Acham-se os “espertos” e, na primeira oportunidade, não perderiam tempo em garantir o seu.
Daí porque não me comovo com a situação dos réus nas audiências criminais. Pode vir dizer que “está arrependido, que os filhos estão sofrendo, que o Presídio Central não é lugar nem para bicho, que praticou o crime porque estava drogado, que se ganhar a liberdade, só quer trabalhar e tocar sua vida”. É mesmo? Só lembraram disso agora? Aí, então, a Promotora de Justiça que é má. É esse tipo de gente que, na primeira oportunidade, está fazendo tudo de novo, é o mesmo caráter dos que querem tirar vantagem da boa vontade alheia, porém potencializada pela violência. E como exigir comportamento diferente, se para todos os lados que olhamos, pessoas de todas as classes se encarregam de dar o “exemplo”?
Não, não é questão de ter perdido a capacidade de me indignar. Pelo contrário, de tanto ver essas barbaridades, já não acredito no ser humano, nem me comovo com cara de réu se fazendo de coitadinho. Até prova em contrário, o ser humano é mau, e os exemplos acima reforçam a tese. É tudo questão de ter oportunidade ou não.
Deve haver um jeito de reverter essa condescendência com a malandragem e substituir pelos protestos e pedidos de providências, que tenho visto ultimamente com relação às práticas do Senado ou como foi no caso do desvio dos donativos. Todo mundo pagou seus impostos, ajudou os flagelados, então todos se sentiram lesados e reclamaram. Só que se a vítima não é a gente, cadê a indignação? Cadê o “vamos apurar e punir os responsáveis?” Quando o cisco é no olho do vizinho, a maioria não se importa. Logo esquecem da vítima assaltada, morta, prejudicada, e só lembram do “coitado do réu, entupindo o presídio, depósito de gente, cadê os direitos humanos?” E para ajudar, Juízes, ditos alternativos, contribuindo com a impunidade, deixando de expedir mandado de prisão de condenados ou permitindo que cumpram prisão em casa.
O único “louco” remando contra a maré, que ainda insiste em lutar, seja por dever legal, indignação ou íntima convicção, parece ser o Promotor de Justiça: brigando por uma condenação, para manter a prisão preventiva, pelo cumprimento da lei, enquanto muitos com certeza nos apontam pelas costas e nos chamam de “otários” e “burros”, por acharmos que ainda temos alguma coisa de valor para resgatar nesse país. “Vamos diminuir as prerrogativas desses descontrolados, precisamos contê-los, eles não sabem o que fazem, quem guardará os guardas?” E tome Lei da Mordaça e outros projetos de leis tentando limitar o Ministério Público.
A vigarice generalizada constitui tendência e revela a total inversão de valores ou falta deles, chamem como quiser. Os Promotores Criminais são psicologicamente afetados, aliás, mereciam adicional de insalubridade pelo contato direto com a escória da sociedade, o que acaba acentuando sua insensibilidade e descrença no ser humano, deixando o romantismo de lado no seu modo de ver o mundo. Sem falar no risco pessoal que correm. Mas, como “loucos”, não se intimidam no cumprimento de seu dever.
Sigo na luta, sem esmorecer, indignada e cada vez mais descrente, cada vez estimando mais os animais.

3 comentários:

Ana Paula disse...

Oi Angela, bonito esse desabafo, e concordo plenamente com teu pensamento. Convivi muitos anos da minha vida no judiciario, e é realmente isso que se ve. O caso do Juiz que não expediu, eu conheci, e me revolta ver que uma pessoa assim, que poderia ter tomado alguma atitude, deixou-a passar. Mas a luta continua... sejamos otimistas, algum dia isso muda... nem que seja num futuro breve para nossos filhos...

Claudia Bins (Cacau) disse...

Comecemos com nossa parte... educando nossos filhos ao invés de delegar à terceiros. Excelente reflexão!

Angela Dal Pos disse...

Oi meninas, obrigada pelas excelentes considerações. Quem sabe fazendo nossa parte a gente consegue mudar um pouquinho essa realidade, né?. beijocas