
Assisti ao filme “As Pontes de Madison”, com Clint Eastwood e Maryl Streep, onde a protagonista, Francesca, se apaixona por um fotógrafo da National Geographic que conhece durante os quatro dias em que o marido e filhos viajam. Apesar da paixão, ela opta por ficar com a família, mantendo em segredo o seu grande amor, que só é revelado aos filhos por meio de escritos deixados após sua morte.
Para mim, a grande sacada do filme ocorre quando Francesca se dá conta de que, se largar a família, não poderá viver intensamente seu amor, por causa do remorso e também por saber que a vida a dois não é um mar de rosas. Uma coisa é quatro dias de contos de fadas, fora da realidade, outra é a rotina, os compromissos e sacrifícios da vida de um casal. Ela opta por guardar aqueles momentos idealizados na lembrança e seguir a vida que tinha antes.
Acho que ela está certa. O segredo da vida a dois está em encontrar na cumplicidade e nos pequenos detalhes, os elementos que nos fazem felizes. As pessoas acostumaram-se a banalizar as separações e qualquer coisa é motivo para acabar um relacionamento. Eu acho muito cansativo viver na corda bamba e correndo constantemente atrás da adrenalina, do frio no estômago das novas relações. Prefiro “a sorte de um amor tranquilo.”
Talvez por isso as pessoas se separem e continuem frustradas, desencontradas, pulando de galho em galho.
No filme “Divã”, baseado no romance de Martha Medeiros, a personagem vivida por Lília Cabral, resolve fazer análise para passar a vida a limpo e decide se separar para fugir da mesmice do casamento. Não que não amasse o marido, mas queria o tal frio na barriga. Depois de envolver-se com caras mais jovens, sofrer desilusões amorosas, perder uma amiga para o câncer, ela revê seus valores e dá-se conta, tarde demais, que seu casamento não precisava ter acabado, apenas precisava de alguns ajustes.
E por que será que só nos damos conta dessas coisas, quando olhamos de fora, depois de passar por uma situação de perda, de fim de relacionamento? Quando se está na relação, sentimo-nos sufocados, incapazes de raciocinar?
A gente precisava ter mais poder de abstração, de ver por outro ângulo, de se colocar no lugar do outro. Enxergar as coisas lá na frente, vivenciar hipoteticamente o “ e se eu...” Mas não, a gente tem que estragar tudo que construiu, machucar o outro e a si mesmo, ver como é. As terapias deviam ajudar as pessoas a viver e a resolver seus problemas hipoteticamente, sem necessidade de “pagar para ver” ou de “viver para crer”. Aliás, esse é o grande mérito da literatura, de permitir que a gente viva a vida dos outros, suas vitórias e derrotas e depois volte para a sua, com outra percepção e, quem sabe, sem precisar cair para saber que dói o tombo.

