sexta-feira, 10 de julho de 2015

Ah, os pais, esses exemplos


Um pai pode influenciar seu filho a fazer qualquer coisa, a gostar de qualquer coisa, para o bem e para o mal. Meu filho tem cinco anos, é do Flamengo, seu pai é do Flamengo, moramos em Porto Alegre, vejam só. Que poder de persuasão têm esses pais! Tão sutil e tão forte. Nas aulas sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente, com o Dr. Jorge Trindade, marcou-me a informação de que a falta da figura paterna pode ser a causa, ou uma das causas, para o desajuste social de muitos adolescentes infratores. A figura do pai é o limite; às vezes essa figura pode ser representada por outra pessoa, que não o pai propriamente dito, mas, se ela é falha, dá margem a danos irreversíveis naquela personalidade em formação. Muitos dos nossos problemas sociais são atribuídos à lacuna histórica na educação, mas muito também, digo eu, por falta de pais de verdade. O pai é o modelo, o heroi desse menino que vai crescendo pisando nas pegadas deixadas por aquele que lhe precede. Quer ser grande para imitá-lo nos brinquedos de adulto, porque, conforme dizem por aí, essa seria a diferença, entre os homens e os meninos. E falo não em tom de crítica ou menosprezo, mas com admiração àqueles que conseguem manter viva a criança dentro de si.
Enquanto isso, meu filho sonha com o dia em que vai ter oito anos para tocar guitarra, com os treze para ter uma banda de rock, com a adolescência para jogar jogos de guerra no videogame, com o dia em que será adulto e poderá dirigir um carro ouvindo a música “It's my life” bem alta, esta última dita por ele hoje. Não o vejo desejando fazer as coisas que a mamãe faz ou gosta, que, sem preconceito algum, não tem a ver com questão de gênero, mas com o paradigma eleito, não dirigido à mim. Até porque eu torço para o Inter, toco piano, gosto de ler, pratico esportes, tenho hábitos saudáveis, coisas que considero bem legais para um filho imitar. Não adianta, a disputa é inglória, a derrota, por goleada. Mãe é colo, consolo, afago, porto seguro. Conforma-se em não ser espelho, basta-lhe ser beijo e abraço, ter o filho por perto, vê-lo bem, dar-lhe amor.
Assim eu desejo, no mais íntimo, na minha lista de pequenas utopias, que os pais sejam carinhosos com suas esposas, gentis com quem lhes presta serviço, do porteiro ao presidente da empresa; honestos acima de tudo, mesmo que pareça bobagem ou sejam taxados de otários; humildes para reconhecer o erro e desculpar-se; tolerantes com o ser humano, seja na igualdade ou na diferença; exerçam de modo consciente o papel fundamental na formação do caráter daqueles que tem a chance de mudar esse país. 

(Texto em homenagem a Gustavo Barreto que é um pai exemplo para Gabriel)


domingo, 25 de maio de 2014

Resenha do Livro da Kelli Pedroso, SEXO DAS ANTAS, por Marcelo da Rosa Costa

Cada vez mais parece que a crônica vai de especializando. O camarada escreve sobre vinhos, relacionamentos, política, esportes, sem sair do seu nicho. Outros preferem arriscar-se para a diversidade, não apenas recolhendo os detalhes que fazem a riqueza do cotidiano, mas mergulhando na vida, refletindo a respeito e opinando. Este é um livro de opiniões.  E opiniões são opiniões, o sujeito as emite, o interlocutor as recebe, pode concordar ou não.  Por exemplo, a autora acredita – ou acreditava quando escreveu – que Osama Bin Laden não morreu quando capturado. Sabia demais, e por isso devia estar em algum buraco secreto dos americanos levando porrada para falar o que sabe.  Eu não concordo, acho que a Al Qaeda seria a primeira a divulgar a informação de que ele poderia estar vivo, ao contrário de denunciar, como fez, a covardia – no entender da organização – da execução de um homem desarmado. 

Poderia ficar páginas e páginas aqui discutindo, ora concordando, ora não, com alguns textos do livro o que, por si só, já demonstra uma grande qualidade: ele propõe um diálogo. E sobre questões presentes para qualquer um que se interesse pelo que acontece na sua volta. Seja a violência urbana, o caos no trânsito (“Não há mais espaço para automóveis nas ruas de Porto Alegre”, diz a autora, e eu concordo com isso) ou a pressa da vida contemporânea. Em outros momentos, traz o leitor para um universo particular; demonstrações de afeto cujo destinatário nos é desconhecido, embora compartilhemos a singeleza universal do gesto. Dessa forma, o que se vê é a construção de um mosaico cuja versatilidade admite, ao virar de uma página, que passemos de Nicolau Maquiavel para Odete Roitman com a naturalidade de alguém que volta pra casa pendurado em cipós.

Particularmente, acredito que alguns textos poderiam ser mais extensos.  Não sei se existia alguma limitação no espaço onde foram originalmente publicados, mas em alguns deles, como “A Observadora”, em que autora contempla a brincadeira das crianças em um parque, o fim abrupto parece interromper o que parecia ser um convite para repararmos naquele momento, apenas sugerido. Haveria mais a ser explorado, principalmente porque a autora demonstrou possuir a sensibilidade necessária para desvendar a riqueza dos acontecimentos prosaicos. Em diversos momentos o livro lança um olhar inconformado para nossa realidade; quando comenta a “Disseminação do Mal”, o já citado “Caos no Trânsito”, a violência ou os descaminhos da cada vez mais desastrosa Copa do Mundo do Brasil. Será que a tendência contemporânea para a concisão, reflexo desta velocidade exigida na vida moderna, não estaria privando o leitor de uma das principais qualidades da literatura: a possibilidade de sublimar esta realidade opressiva pela sua própria natureza, de uma atividade que requer atenção, silêncio, paciência, ou seja, tempo? Coincidentemente, ou não, o texto que trata (ou ataca) diretamente estas questões, “Contra as Horas”, é o mais extenso do livro.

A principal virtude de “O Sexo das Antas” é que, ao juntarmos os seus recortes do presente, conseguimos formar uma imagem do que é, e um dia terá sido, através do olhar de uma cronista do Sul do Brasil, essa primeira década do século XXI. 



terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Resenha do livro de contos da Alexandra Cunha - recomendo!


O desastre é viver

Por Guilherme Bacchin

Será destino acabarmos sentenciados pelo esquecimento, e culpados pelo nosso amor? Sem amor, sem paixão, e sem desejo, não teríamos realidade, e muito menos nossas próprias vontades, mesmo com o paradigma eterno de ser ou não cinza?
Amor e outros desastres, de Alexandra Cunha, não é o desespero da sentença, é o despropósito de nosso julgamento enquanto houver força em nossa voz, e não treva em nossa alma. Cada conto é uma pincelada que deforma o mais vazio que carrega o homem − sua existência. Eis que, na tela final, somos forçados a depararmo-nos com nosso íntimo, pelo puro absurdo da verdade: o que somos é uma deformidade.
Sob a ideia prisioneira da libertação, nas arestas do livro vemos o purgatório da vida, a rejeição da chama, que só existe por saber que se perderá em poeira. Nos foi dado o esquecimento da alma, e esta é nossa única eternidade. Foi o que pensei ao lê-lo. O tempo descolore aos poucos o arco-íris, até fazer dele uma tarja preta que escurece nossa visão com a única verdade permitida ao homem: ele do nada sai, e para o nada vai. O que nos resta? Escrever para nos libertar. Mas escritores como Alexandra, aprisionam-se à sua escrita, e por ser esta sua liberdade, é também sua escravidão.
A literatura sempre será válida porque nos tira daqui. Amor e outros desastres, não. Ele nos prende à vida, nos grava no asco de nossa carne a maldição de pertencer à morte, e a mais ninguém. Para então não suportarmos ver que tudo o que verdadeiramente carregamos são as feridas de nosso passado, e a companhia da solidão.
A mesma constante que habita a literatura de Alexandra é a exposta em O Grito, de Munch, e na literatura kafkiana por definição. Os estilos narrativos são antíteses, paradoxos, o que Kafka brutalmente sugeria, Alexandra elegantemente revela; o desespero, a queda iminente do abismo, alienar-se da vida como único jeito de viver. A fuga é redenção, é amor, e ambos são variáveis, falhos, vazios. De invariável, só a dor e o ponto final.
Literatura não se faz com felicidade, assim como amor não se faz com liberdade. Alguns tocam nossa alma ao escrever, outros, como Alexandra, a rasgam. O desastre do amor, do ódio, do esquecimento, do abismo, são atenuantes das lágrimas de alma, porém menores. Enquanto houver os insensíveis da ação, enquanto houver traças, o maior desastre por aqui será viver.

domingo, 21 de julho de 2013

Susto em Gatwick

Eu me acomodava na janela do voo São Paulo-Londres quando o moço de quase dois metros e cara pouco amistosa - tinha bigode e sangue no branco dos olhos - ocupou a poltrona a meu lado, já puxando assunto em inglês. A aparência dele dava medo. 

Durante o voo ele não pareceu ter problemas para dormir, enquanto eu mal conseguia pregar o olho, pensando que ele poderia colocar alguma coisa na minha mochila, ou subtrair algo. E se precisasse ir ao banheiro? O gigante não parecia que acordaria fácil, e passar por cima dele se vislumbrava impossível. 

Ao aterrisarmos, tratei logo de me distanciar.
No saguão para retirar a bagagem, cachorros e policiais circulavam, enquanto meu "colega" de viagem falava muito alto no celular, gesticulando e chamando atenção. Para meu azar, as pessoas foram escasseando, e as nossas malas foram das últimas a aparecer na esteira. Peguei a minha e me apressei para a saída, quando o moço veio atrás, me chamando e captando a atenção dos policiais.
Um deles ordenou que meu "colega" se dirigisse a uma das mesas. Fui logo me despedindo "bye bye", mas o homem me apontou o cassetete "you too". Expliquei que não estava com o rapaz. Não adiantou. Lá fui eu abrir minha mala para uma policial com luvas cirúrgicas e um aparelho detector de sabe-se-lá-o-quê. O rapaz, na mesa ao lado, não parava de explicar que não estava comigo, o que só parecia piorar a situação. Já tinham lhe aberto a mala, que, aliás, só tinha roupa usada podre dentro, tudo embolado. A moça passou o detector, esfregou um papelzinho branco pela mala e sumiu para dentro de uma sala. Para ajudar, adiante se ouviu uma gritaria, onde uma chinesa se ajoelhava pedindo que não lhe retirassem os pacotes de cigarro. 
Finalmente, a policial voltou com o resultado. "Positivo". "Positivo para quê?"-perguntou o moço. "Cocaína"- respondeu a policial."O senhor me acompanhe".
Enquanto "meu colega" era conduzido, olhei apavorada para a moça que continuava a revirar minha mala. "Perdão,  eu não estou com o rapaz, apenas sentou ao meu lado no voo". A policial me olhou muito séria: "Você tem alguma coisa a esconder?" "Claro que não"- respondi. "Então, por que está preocupada?"
Pelo jeito não iam presumir nada, a menos que eu tivesse algo a me incriminar, e, quanto a isso, eu estava tranquila, afinal,fizera vigília durante todo o voo.
Foi aí que entendi aquela fixação nos aeroportos para que você fique sempre de olho na sua mala. 
Felizmente fui liberada. 
Quando lembro dessa história, começo a pensar que Lombroso tinha razão. 
Ou meu instinto é muito bom. 

(Crônica publicada no Jornal Zero Hora, caderno Viagem, em 9/7/13)

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Texto na ZH

Saiu um texto meu na ZH de Terça passada, no Caderno Viagem, "Susto em Gatwick". Leiam e palpitem!
PS. Caso não consigam ler por aqui, aguardem que no próximo post eu coloco o texto.
Também estou devendo as impressões sobre a Flip - Festa Literária de Paraty de 2013, que ocorreu na semana passada.