domingo, 11 de abril de 2010

O Olhar de Antony - por Nílson Souza


O talentoso jornalista (e impagável piadista) Ivo Stigger me presenteou esta semana com a revista que edita para a Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre. Como recebo dezenas de publicações por semana, quase sempre dou uma folheada e deixo de lado para ver mais tarde. Mas o olhar de Antony me fisgou. E quando me fixei mais atentamente no garotinho de um ano que ilustra a capa da publicação, fui fulminado pela cicatriz em seu peito – um corte da parte superior do esterno até o umbigo. Li a história do menino e me comovi mais ainda.

Antony, contam o editorial escrito por Stigger e a reportagem de Angela Caporal, viajou do Acre a Porto Alegre nos braços de sua mãe, de 18 anos, e de sua avó, para se livrar de uma doença congênita do coração. Foi operado no Hospital da Criança Santo Antônio, que desde 2002, graças a um mutirão de solidariedade feito no Estado, voltou a funcionar e passou a integrar o Complexo Hospitalar Santa Casa. Todo o tratamento do menino foi custeado pelo SUS – o nosso tão útil e tão malfalado sistema de saúde pública.

Fiquei longo tempo contemplando a foto do pequeno guerreiro, recém-saído da batalha pela vida. Ela documenta um milagre da medicina, que devolveu vigor ao coraçãozinho avariado. Mas retrata acima de tudo um episódio de coragem, de imensa coragem. Primeiro por parte das duas mulheres que atravessaram o país com sua frágil carga humana, protegida pelo invólucro do amor desinteressado e exclusivo das mães (avó é mãe ao quadrado). Depois, por parte de uma equipe de anônimos servidores da saúde que lidam diariamente com o sofrimento dos doentes, especialmente aqueles que cuidam das crianças enfermas. Porém, o mais impressionante gesto de coragem – na minha visão – foi praticado pelo homem do bisturi, que rasgou o peito delicado do menino para extrair o mal e para consertar os danos com os seus dedos de relojoeiro. Que destemor! Que determinação! Que precisão!

Sei que os cirurgiões fazem isso todos os dias, mas este fez o seu trabalho com tanta destreza e carinho, que, ao tocar no coração do garoto, fez acender uma luz mágica no seu olhar.


Essa crônica foi públicada na Zero Hora de ontem, 11/04/10 e quis dividir com vocês.
Obrigada a Nilson Souza por nos presentear com o olhar de Antony.
Escrita com muito carinho,não pude conter as lágrimas.
Agradeço a Deus pela saúde desse anjinho.
Em tempos de pacote de beleza, é bom ler um texto desses para nos sacudir da nossa futilidade.
abraços

2 comentários:

Claudia Bins (Cacau) disse...

Ângela, que história incrível! É realmente de emocionar... nós que temos filhos saudáveis nem temos idéia da dor da uma mãe que passa por situação semelhante. Eu rezo todos os dias pedindo saúde e segurança para os meus... o resto vem...

Beijo,

Cacau

Daniel Hiver disse...

Ângela...
Realmente tocante... O tipo de história que nos derrete por dentro. Vivemos num mundo de insensibilidade, de pessoas duras e "o invólucro de amor" que levou essas mulheres a atravessar o país, no caso de muita gente não faz ninguém ir nem de uma esquina a outra.
Esse tipo de ação e coragem nos dá o que pensar. E é muito inspirador. Parabéns por me deixar assim pensativo e emocionado!