quarta-feira, 19 de setembro de 2012
domingo, 16 de setembro de 2012
Uma geração de avós precoces
(foto: Gustavo Barreto)
Não passaremos impunes à nossa
escolha de adiar a maternidade/paternidade.
A vida pós-moderna exige que as pessoas estudem, façam carreira, obtenham a independência financeira e lá perto dos quarenta, porque a natureza pede a conta, é que pensem em ter filhos. Muitos desistem. Preferem usufruir do padrão alcançado sem preocupações com os cuidados a outro ser.
Sou dessas que deixaram a maternidade para a última badalada do relógio. Se meu filho resolver fazer o mesmo, fico pensando que talvez não venha a conhecer meus netos. Entretanto, alimento uma esperança rebelde, por conta da medicina que nos faz viver mais.
Somos uma geração de pais-velhos-de-primeira-viagem e, pelo jeito, sem perceber, passamos a atuar como se avós fôssemos: estamos estragando os filhos. É antiga aquela máxima de que os pais educam e os avós estragam. O que se vê, no entanto, é a total ausência de limites, com pais deixando os filhos fazer tudo. Nós, adeptos da paternidade tardia, carregamos a culpa da falta de tempo e queremos compensá-la com a permissividade, com presentes. Intitulamo-nos amigos dos filhos e agimos como tais. Pesa, também, o fato de que educar dá trabalho, desgasta, exige tempo, dedicação e persistência. É mais fácil dizer sim.
O que não percebemos é que estamos criando pessoas despreparadas para as frustrações. Os candidatos a monstro se criam na permissividade, não no limite. Os primeiros embates já começarão na escola, quando encontrarem crianças e professores indiferentes à sua tirania. Em decorrência, passarão a desenvolver uma revolta aparentemente sem motivos. “Não entendo, meu filho tem tudo, faz o que quer”. Parece óbvio para quem olha, mas quem está no papel de educador não enxerga onde está o problema. Ou não teríamos tantas crianças endiabradas por aí, sem educação, más, pequenos reis querendo impor sua vontade aos demais.
Não sou uma mãe perfeita, admito. Trabalho o dia todo, dificilmente consigo almoçar com meu pequeno, chego de noite cansada, louca por um banho e cama. Ao contrário, há um menino doido por atenção e inicio o terceiro turno. Tenho que encontrar energia para brincar e conversar e explicar e dizer não e ceder e dizer não de novo. Ah, e negociar. É um estica-e-solta sem fim. Minha regra é tentar manter a palavra, ser coerente, o que nem sempre consigo, o que nem sempre funciona. E me envolvo. A criança sente e aceita. Com um tanto de birra, claro, mas aceita. O limite, somado ao amor, dá segurança.
Recebo inúmeros elogios das pessoas sobre o comportamento do meu filho, o que me faz pensar que estou no caminho certo. Será que consigo educá-lo desse modo porque ele é meigo e tranquilo ou é meigo e tranquilo porque é educado desse modo? Prefiro acreditar na segunda opção. Vó antes do tempo, nem pensar.
A vida pós-moderna exige que as pessoas estudem, façam carreira, obtenham a independência financeira e lá perto dos quarenta, porque a natureza pede a conta, é que pensem em ter filhos. Muitos desistem. Preferem usufruir do padrão alcançado sem preocupações com os cuidados a outro ser.
Sou dessas que deixaram a maternidade para a última badalada do relógio. Se meu filho resolver fazer o mesmo, fico pensando que talvez não venha a conhecer meus netos. Entretanto, alimento uma esperança rebelde, por conta da medicina que nos faz viver mais.
Somos uma geração de pais-velhos-de-primeira-viagem e, pelo jeito, sem perceber, passamos a atuar como se avós fôssemos: estamos estragando os filhos. É antiga aquela máxima de que os pais educam e os avós estragam. O que se vê, no entanto, é a total ausência de limites, com pais deixando os filhos fazer tudo. Nós, adeptos da paternidade tardia, carregamos a culpa da falta de tempo e queremos compensá-la com a permissividade, com presentes. Intitulamo-nos amigos dos filhos e agimos como tais. Pesa, também, o fato de que educar dá trabalho, desgasta, exige tempo, dedicação e persistência. É mais fácil dizer sim.
O que não percebemos é que estamos criando pessoas despreparadas para as frustrações. Os candidatos a monstro se criam na permissividade, não no limite. Os primeiros embates já começarão na escola, quando encontrarem crianças e professores indiferentes à sua tirania. Em decorrência, passarão a desenvolver uma revolta aparentemente sem motivos. “Não entendo, meu filho tem tudo, faz o que quer”. Parece óbvio para quem olha, mas quem está no papel de educador não enxerga onde está o problema. Ou não teríamos tantas crianças endiabradas por aí, sem educação, más, pequenos reis querendo impor sua vontade aos demais.
Não sou uma mãe perfeita, admito. Trabalho o dia todo, dificilmente consigo almoçar com meu pequeno, chego de noite cansada, louca por um banho e cama. Ao contrário, há um menino doido por atenção e inicio o terceiro turno. Tenho que encontrar energia para brincar e conversar e explicar e dizer não e ceder e dizer não de novo. Ah, e negociar. É um estica-e-solta sem fim. Minha regra é tentar manter a palavra, ser coerente, o que nem sempre consigo, o que nem sempre funciona. E me envolvo. A criança sente e aceita. Com um tanto de birra, claro, mas aceita. O limite, somado ao amor, dá segurança.
Recebo inúmeros elogios das pessoas sobre o comportamento do meu filho, o que me faz pensar que estou no caminho certo. Será que consigo educá-lo desse modo porque ele é meigo e tranquilo ou é meigo e tranquilo porque é educado desse modo? Prefiro acreditar na segunda opção. Vó antes do tempo, nem pensar.
domingo, 19 de agosto de 2012
Dica de Blog de Literatura
Aos que amam literatura e as várias discussões que ela enseja, não deixem de conhecer e participar deste blog sobre as Leituras do Século XXI,criado a partir do curso do mesmo nome, dirigido pela Professora Léa Masina. Enjoy!http://leiturasdosec21.blogspot.com.br/
domingo, 15 de abril de 2012
Por onde se lança a violência
Estive pensando a respeito da jornalista do Sunday Times, Marie Colvin, morta em um ataque na Síria, em fevereiro deste ano, juntamente com o fotógrafo Rémi Ochilik, quando cobriam os conflitos. A repórter ostentava um tapa-olho, simbolizando o compromisso com seu ofício: uma marca da cobertura da guerra civil no Sri Lanka, em 2001, que lhe tirou parte da visão. Durante três décadas, ela esteve desempenhando a profissão em alguns dos confrontos mais sangrentos da atualidade. O tapa-olho devia ocultar apenas uma das suas cicatrizes.
Tenho treze anos de profissão como Promotora de Justiça, dez deles na área criminal. Acostumei-me a ver a violência pungindo as vítimas com chagas de brasa e mágoa. Marcas internas, porém quase tangíveis pela consistência dolorida dos relatos e do peso dos acontecimentos, que impregnam o ar da sala de audiências e repugnam o estômago do ouvinte. E a mim mesma embrutecendo, dia após dia, perdendo a inocência, a fé no ser humano, sem saber como lidar diante de tanto sofrimento.
Ao recontar um crime, a vítima o revive, e quem escuta compartilha do episódio. Minha alma vai se encolhendo, encolhendo, a ponto de encostar-se às costas. Sobra corpo para um eu tão oprimido.
Uma análise da matéria que me compõe revelaria incontáveis solidificações protetivas, combinadas com sulcos na carne dos sentimentos reprimidos, rotulados com a tarja conformista de “ossos do ofício”, e que viabilizam às pessoas que trabalham em situações críticas continuar sua labuta. Seguir vivendo.
Quem já foi alvo da maldade alheia, seja crime ou não, fica dias, meses, talvez anos, revivendo as cenas, sentindo as consequências do dano impingido. Quando envolve violência, dificilmente se esquece. E se a vítima for criança? E se o crime for abuso sexual?
Eis algo contra o qual a experiência da profissão não conseguiu me blindar. Impossível manter-se apático quando se é jogado na escuridão de um túnel dos horrores, com o mau cheiro invadindo as narinas até as entranhas, para ao final se deparar com a verdade crua contada pelos olhos da criança.
Até os sete anos, os pequenos são como esponjas absorvendo toda a realidade sem questionar. O entendimento é limitado. Um ínfimo dilema é um drama sem fim. O que acontece, então, quando a vida é um pesadelo de verdade? Assimilam-no como natural. Amoldam-se. Não cause surpresa se vierem a repetir a violência sofrida. E o Estado, pelo visto, não percebe a urgência de intervir em prol da infância, protegendo-os integralmente, garantindo educação e dignidade.
Já vi tanta coisa. Um tapa-olho seria apenas a bandeira marcando a ponta do iceberg das cicatrizes. Ninguém se surpreenda se eu passar a ostentar a venda da Justiça, na cor negra, em minha indumentária ou amarrada no braço, em protesto contra a violência e seu rastro de estrago coletivo. Em respeito às vítimas. E a você, que sente os respingos, enquanto apenas passa na rua ou lê este texto.
(texto publicado na intranet do Ministério Público do RS em 20/03/12).
Tenho treze anos de profissão como Promotora de Justiça, dez deles na área criminal. Acostumei-me a ver a violência pungindo as vítimas com chagas de brasa e mágoa. Marcas internas, porém quase tangíveis pela consistência dolorida dos relatos e do peso dos acontecimentos, que impregnam o ar da sala de audiências e repugnam o estômago do ouvinte. E a mim mesma embrutecendo, dia após dia, perdendo a inocência, a fé no ser humano, sem saber como lidar diante de tanto sofrimento.
Ao recontar um crime, a vítima o revive, e quem escuta compartilha do episódio. Minha alma vai se encolhendo, encolhendo, a ponto de encostar-se às costas. Sobra corpo para um eu tão oprimido.
Uma análise da matéria que me compõe revelaria incontáveis solidificações protetivas, combinadas com sulcos na carne dos sentimentos reprimidos, rotulados com a tarja conformista de “ossos do ofício”, e que viabilizam às pessoas que trabalham em situações críticas continuar sua labuta. Seguir vivendo.
Quem já foi alvo da maldade alheia, seja crime ou não, fica dias, meses, talvez anos, revivendo as cenas, sentindo as consequências do dano impingido. Quando envolve violência, dificilmente se esquece. E se a vítima for criança? E se o crime for abuso sexual?
Eis algo contra o qual a experiência da profissão não conseguiu me blindar. Impossível manter-se apático quando se é jogado na escuridão de um túnel dos horrores, com o mau cheiro invadindo as narinas até as entranhas, para ao final se deparar com a verdade crua contada pelos olhos da criança.
Até os sete anos, os pequenos são como esponjas absorvendo toda a realidade sem questionar. O entendimento é limitado. Um ínfimo dilema é um drama sem fim. O que acontece, então, quando a vida é um pesadelo de verdade? Assimilam-no como natural. Amoldam-se. Não cause surpresa se vierem a repetir a violência sofrida. E o Estado, pelo visto, não percebe a urgência de intervir em prol da infância, protegendo-os integralmente, garantindo educação e dignidade.
Já vi tanta coisa. Um tapa-olho seria apenas a bandeira marcando a ponta do iceberg das cicatrizes. Ninguém se surpreenda se eu passar a ostentar a venda da Justiça, na cor negra, em minha indumentária ou amarrada no braço, em protesto contra a violência e seu rastro de estrago coletivo. Em respeito às vítimas. E a você, que sente os respingos, enquanto apenas passa na rua ou lê este texto.
(texto publicado na intranet do Ministério Público do RS em 20/03/12).
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
Prêmio Açorianos de Literatura
Foi muito legal a entrega do Prêmio Açorianos de Literatura. Havia vários colegas meus da oficina do Charles Kiefer concorrendo como finalistas, dentre eles a Eny Algayer e o Nelson Rego, este, inclusive venceu na categoria contos. Vários escritores consagrados prestigiaram o evento. Humberto Gessinger deu conta da canja musical e de apresentar os vencedores. O livro do ano ficou para Diáfana, de Celso Sisto. Veja aqui os vencedores de todas as categorias http://coordenacaodolivro.blogspot.com/2011/12/vencedores-do-premio-acorianos-de.html
Olha quem a gente encontrou por lá:
Foto1: finalistas Nelson Rego, Silveira, Karina Luft e Eny Algayer
Foto 2: (fico devendo o nome da moça à esquerda) Eny Algayer, Nelson Rego, Carla da Palavraria, Luisa, e eu.
Foto 3: vencedores do Açorianos
Foto 4: Humberto Gessinger à direita
Foto 5: escritor Antônio Xerxenesky e jornalista Lu Thomé (fato literário 2011 c/ Sport Clube Literatura)
Foto 6: Editor da Dublinense Rodrigo Rosp e o escritor Charles Kiefer
Foto 7: Escritoras Eny Algayer e Karina Luft
Olha quem a gente encontrou por lá:
Foto1: finalistas Nelson Rego, Silveira, Karina Luft e Eny Algayer
Foto 2: (fico devendo o nome da moça à esquerda) Eny Algayer, Nelson Rego, Carla da Palavraria, Luisa, e eu.
Foto 3: vencedores do Açorianos
Foto 4: Humberto Gessinger à direita
Foto 5: escritor Antônio Xerxenesky e jornalista Lu Thomé (fato literário 2011 c/ Sport Clube Literatura)
Foto 6: Editor da Dublinense Rodrigo Rosp e o escritor Charles Kiefer
Foto 7: Escritoras Eny Algayer e Karina Luft
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
Flashes da Feira do Livro
Fiquei devendo algumas fotos que tirei de escritores na Feira do Livro de Porto Alegre. Abaixo os escritores David Coimbra, Eduardo Sacheri, Rui Carlos Osterman, Fabrício Carpinejar, Luís Fernando Veríssimo, Martha Medeiros. E eu e o Gabriel, claro, em alguns momentos de tietagem. Embora a foto pareça estar pela metade no blog, basta clicar sobre ela para abrir e visualizá-la inteira.
Martha Medeiros
Carpinejar
David Coimbra
Luís Fernando Veríssimo
Osterman e Sacheri
Martha Medeiros
Carpinejar
David Coimbra
Luís Fernando Veríssimo
Osterman e Sacheri
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
Notícias da Feira do Livro de Porto Alegre
Assisti ontem a um Painel com a escritora portuguesa Lídia Jorge, com a participação da Patrona Jane Tutikian, Walter Galvani e Cíntia Moscovich, tendo a convidada conversado sobre sua obra "O Vento Assobiando nas Gruas" e abordado outras questões literárias.
A escritora referiu que sua relação com a literatura vem de muito cedo, quando havia em sua casa uma pequena biblioteca e ela lia os livros em voz alta para os familiares. Na época achava o universo adulto muito triste, porque aquelas histórias sempre tinham um final trágico. Sua inserção na escrita se deu por meio da tentativa de reescrever finais felizes para aquelas histórias e, assim, tornar o mundo melhor.
Me identifiquei muito quando ela disse que somente é capaz de escrever em português, embora possa falar outras línguas, pois somente o convívio desde cedo com a língua mãe permite o domínio desta e a possibilidade de se expressar literariamente nesta língua.
De fato, embora fale e compreenda algumas línguas como o inglês, o itlaiano e espanhol, meu domínio é parcial, como se enxergasse por meio de uma lanterna, somente o que está iluminado pelo meu facho de luz, porém, além daquilo que conheço, esconde-se um universo de palavras e significados para mim desconhecidos, o que tornariam minha escrita por demais pobre em outra língua. Se já é muito difícil escrever bem em português, imagine na língua dos outros.
Infelizmente não pude assisitr todo o painel, porque em seguida tive minha sessão de autógrafos junto com os outros autores que compuseram o Caderno de Literatura n.º20 da AJURIS, o que foi bem legal. O Caderno está disponível na versão digital, e meu conto "Cartas", está na fl. 143. Confere aqui.
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