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segunda-feira, 12 de setembro de 2016

A pequena vitória de cada dia


Recebi um e-mail de um rapaz, escritor independente, perguntando qual o procedimento para que eu resenhasse o livro que ele estava lançando e divulgasse no blog.
Achei legal o interesse dele, pois mostra o prestígio e importância do que escrevo, mas expliquei que eu não fazia resenhas  por remuneração, mas por gosto, dos livros que leio. E no momento estava dedicando todo o meu tempo disponível para os posts do blog, porém, se acaso viesse a ler seu livro, faria uma resenha com uma análise sincera sobre o conteúdo. 
Vejam, não é uma questão de ser arrogante, de indiretamente dizer “não tenho intenção de ler o seu livro”, mas de foco. O meu dia continua tendo apenas 24 horas e se não der prioridade ao que é mais relevante e que me propus a fazer, não vou conseguir produzir textos e conteúdo de qualidade para vocês. Às vezes é importante dizer não para os outros para dizer sim a você mesmo, dá para entender? Por exemplo, nesse momento eu não estou produzindo tanto como eu gostaria porque estou tentando aprender sobre marketing digital para conseguir divulgar meu material a um maior número de pessoas. Estou aprendendo a produzir vídeos, editar, criar design, etc, e com isso entregar conteúdo com mais qualidade, dentro do meu propósito. Não dá para abraçar o mundo. Percebem? 
Tudo isso para dizer que o que produzo aqui é sem pretensão alguma de lucro, senão de entreter, fazer refletir, informar, motivar, produzir emoções. Quero agregar valor, trazer algo que possa ter relevância pra a vida das pessoas. Não é escrever por escrever. Por isso cada novo leitor ou leitora que passa a seguir a página ou o blog é comemorado como uma pequena vitória, um passo a mais rumo ao objetivo de fazer com que esse conteúdo chegue ao maior número de pessoas. É o que me move a continuar escrevendo. 
Procuro comemorar cada pequena conquista e, assim, ir acumulando uma a uma. Valorizar as pequenas recompensas do caminho me fazem continuar andando. Olho pra trás e analiso tudo que trilhei para chegar onde estou e ter em mente o ponto que pretendo alcançar. Autoajuda? Não, digo que é inteligência intrapessoal, busca de autoconhecimento. Pretendo falar sobre isso em outro texto. Por ora, minha gratidão por cada um que lê e acompanha o blog.

domingo, 16 de setembro de 2012

Uma geração de avós precoces

                                                            (foto: Gustavo Barreto)


Não passaremos impunes à nossa escolha de adiar a maternidade/paternidade. 
A vida pós-moderna exige que as pessoas estudem, façam carreira, obtenham a independência financeira e lá perto dos quarenta, porque a natureza pede a conta, é que pensem em ter filhos. Muitos desistem. Preferem usufruir do padrão alcançado sem preocupações com os cuidados a outro ser.
Sou dessas que deixaram a maternidade para a última badalada do relógio. Se meu filho resolver fazer o mesmo, fico pensando que talvez não venha a conhecer meus netos. Entretanto, alimento uma esperança rebelde, por conta da medicina que nos faz viver mais.
Somos uma geração de pais-velhos-de-primeira-viagem e, pelo jeito, sem perceber, passamos a atuar como se avós fôssemos: estamos estragando os filhos.  É antiga aquela máxima de que os pais educam e os avós estragam. O que se vê, no entanto, é a total ausência de limites, com pais deixando os filhos fazer tudo. Nós, adeptos da paternidade tardia, carregamos a culpa da falta de tempo e queremos compensá-la com a permissividade, com presentes. Intitulamo-nos  amigos dos filhos e agimos como tais. Pesa, também, o fato de que educar dá trabalho, desgasta, exige tempo, dedicação e persistência. É mais fácil dizer sim.
O que não percebemos é que estamos criando pessoas despreparadas para as frustrações. Os candidatos a monstro se criam na permissividade, não no limite. Os primeiros embates já começarão na escola, quando encontrarem crianças e professores indiferentes à sua tirania. Em decorrência, passarão a desenvolver uma revolta aparentemente sem motivos. “Não entendo, meu filho tem tudo, faz o que quer”. Parece óbvio para quem olha, mas quem está no papel de educador não enxerga onde está o problema. Ou não teríamos tantas crianças endiabradas por aí, sem educação, más, pequenos reis querendo impor sua vontade aos demais.
Não sou uma mãe perfeita, admito. Trabalho o dia todo, dificilmente consigo almoçar com meu pequeno, chego de noite cansada, louca por um banho e cama. Ao contrário, há um menino doido por atenção e inicio o terceiro turno. Tenho que encontrar energia para brincar e conversar e explicar e dizer não e ceder e dizer não de novo. Ah, e negociar. É um estica-e-solta sem fim. Minha regra é tentar manter a palavra, ser coerente, o que nem sempre consigo, o que nem sempre funciona. E me envolvo. A criança sente e aceita. Com um tanto de birra, claro, mas aceita. O limite, somado ao amor, dá segurança.
Recebo inúmeros elogios das pessoas sobre o comportamento do meu filho, o que me faz pensar que estou no caminho certo. Será que consigo educá-lo desse modo porque ele é meigo e tranquilo ou é meigo e tranquilo porque é educado desse modo? Prefiro acreditar na segunda opção. Vó antes do tempo, nem pensar.

 

domingo, 15 de abril de 2012

Por onde se lança a violência

Estive pensando a respeito da jornalista do Sunday Times, Marie Colvin, morta em um ataque na Síria, em fevereiro deste ano, juntamente com o fotógrafo Rémi Ochilik, quando cobriam os conflitos. A repórter ostentava um tapa-olho, simbolizando o compromisso com seu ofício: uma marca da cobertura da guerra civil no Sri Lanka, em 2001, que lhe tirou parte da visão. Durante três décadas, ela esteve desempenhando a profissão em alguns dos confrontos mais sangrentos da atualidade. O tapa-olho devia ocultar apenas uma das suas cicatrizes.

Tenho treze anos de profissão como Promotora de Justiça, dez deles na área criminal. Acostumei-me a ver a violência pungindo as vítimas com chagas de brasa e mágoa. Marcas internas, porém quase tangíveis pela consistência dolorida dos relatos e do peso dos acontecimentos, que impregnam o ar da sala de audiências e repugnam o estômago do ouvinte. E a mim mesma embrutecendo, dia após dia, perdendo a inocência, a fé no ser humano, sem saber como lidar diante de tanto sofrimento.

Ao recontar um crime, a vítima o revive, e quem escuta compartilha do episódio. Minha alma vai se encolhendo, encolhendo, a ponto de encostar-se às costas. Sobra corpo para um eu tão oprimido.
Uma análise da matéria que me compõe revelaria incontáveis solidificações protetivas, combinadas com sulcos na carne dos sentimentos reprimidos, rotulados com a tarja conformista de “ossos do ofício”, e que viabilizam às pessoas que trabalham em situações críticas continuar sua labuta. Seguir vivendo.

Quem já foi alvo da maldade alheia, seja crime ou não, fica dias, meses, talvez anos, revivendo as cenas, sentindo as consequências do dano impingido. Quando envolve violência, dificilmente se esquece. E se a vítima for criança? E se o crime for abuso sexual?

Eis algo contra o qual a experiência da profissão não conseguiu me blindar. Impossível manter-se apático quando se é jogado na escuridão de um túnel dos horrores, com o mau cheiro invadindo as narinas até as entranhas, para ao final se deparar com a verdade crua contada pelos olhos da criança.

Até os sete anos, os pequenos são como esponjas absorvendo toda a realidade sem questionar. O entendimento é limitado. Um ínfimo dilema é um drama sem fim. O que acontece, então, quando a vida é um pesadelo de verdade? Assimilam-no como natural. Amoldam-se. Não cause surpresa se vierem a repetir a violência sofrida. E o Estado, pelo visto, não percebe a urgência de intervir em prol da infância, protegendo-os integralmente, garantindo educação e dignidade.

Já vi tanta coisa. Um tapa-olho seria apenas a bandeira marcando a ponta do iceberg das cicatrizes. Ninguém se surpreenda se eu passar a ostentar a venda da Justiça, na cor negra, em minha indumentária ou amarrada no braço, em protesto contra a violência e seu rastro de estrago coletivo. Em respeito às vítimas. E a você, que sente os respingos, enquanto apenas passa na rua ou lê este texto.

(texto publicado na intranet do Ministério Público do RS em 20/03/12).

sábado, 28 de agosto de 2010

Sobre novelas, filmes e literatura

Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma, já dizia Lavoisier. Estou me convencendo que a regra vale para literatura.
Eu não sou muito fã de novela, mas ultimamente virei aficcionada pela nova versão de Tititi, acho que por uma nostalgia de minha adolescência quando passou a versão original. Pois bem, quem acompanha deve saber do drama da personagem Marcela da atriz Isis Valverde, grávida, que sofre um acidente de carro com o amigo Osmar,o qual morre, e a mãe de Osmar, num mal entendido, pensa que a moça era namorada do seu filho e que o bebê que Marcela está esperando é seu neto. A moça acaba mantendo a versão, com pena da mãe do amigo que está com câncer. A moça é hostilizada pelo irmão de Osmar que, sabendo da história, acusa a moça de querer dar um golpe, já que a família é abastada. Com o tempo, acaba surgindo um clima de romance entre os dois.
Lembrou muito um filme, Amor por acidente, baseado no livro Casei-me com um morto, de Coronel Woolrich, onde um casal viajava num trem indo visitar os pais do moço, que iria apresentar a esposa grávida. Na viagem conhecem uma moça, também grávida, e fazem amizade. Ocorre um acidente no exato momento em que a segunda moça experimentava a aliança da outra. O casal morre no acidente, e a moça é acolhida pela família do rapaz como se fosse a esposa. Inicialmente ela também é hostilizada pelo irmão do rapaz falecido, mas no fim acabam se apaixonando e ficam juntos, mesmo sendo descoberto o engano. O filme é ótimo, quero ver se consigo ler o livro.
Andei dando uma olhada na novela Passione. A personagem da atriz Mariana Ximenes, Clara, me irrita profundamente, fazendo o marido de gato e sapato, e o pateta sem desconfiar de nada das suas falcatruas. Parecia que eu já tinha visto aquela história em algum lugar. Então lembrei do livro do Vargas Llosa, Travessuras da Menina Má, e tive certeza de que, na Literatura, na novela, tudo se copia.

Abaixo cena do filme Amor por acidente.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Toy Story 3

Assisti Toy Story 3 e achei tão bonitinho. Posso dizer que o filme é mais para os adultos que para as crianças, porque tem certas nuances que as crianças não conseguem perceber.
O apego dos brinquedos ao menino-dono, Andy, e o desinteresse deste pelos brinquedos por ter entrado na adolescência e não brincar mais me levaram a refletir sobre o consumismo. A gente se desfaz das coisas em dois toques porque surge outra apresentada como "melhor", mesmo que a que você tinha continuasse cumprindo sua função. O pior é que começamos a substituir as pessoas. Acho que os brinquedos representam justamente estas relações descartáveis entre as pessoas, que ocorrem toda hora, e a gente nem percebe. Ao olhar para trás, lá estão pilhas de ressentimentos e arrependimentos deixados pelo caminho.
No caso de Andy, sente-se uma certa tristeza dele por ter que deixar os brinquedos para trás, depositando-os no sótão. Não é fácil crescer e ter que guardar nossa criança no sótão. Então por que guardá-la?
Ainda há tempo de libertar a criança, retomar amizades, caminhar descalço, desapegar-se de coisas, ganhar tempo com quem amamos. Já se deram conta quanto tempo perdemos com esse monte de aparato tecnológico? Temos a impressão que estamos sempre ocupados, mas com o quê especificamente?
Simplifique sua vida, livre-se dos entulhos, deixe espaço para o que interessa. Inclusive para a sua criança interior.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

O Escritor e o Marketing

Tecnologia é tudo hoje em dia, não? Para quem consegue aliá-la ao marketing, então, pode ser o segredo do sucesso.
O Carpinejar está fazendo o lançamento do livro Mulher Perdigueira com bate-papo com outros autores em várias capitais e utiliza o twitter para transmitir os eventos ao vivo. Estive no lançamento em Porto Alegre em que ele esteve conversando com a Martha Medeiros e o José Pedro Goulart. Foi muito interessante e tudo transmitido via twitter.
Hoje teve lançamento em São Paulo, e a conversa foi com a Marcia Tiburi. O vídeo está no blog do escritor.
Acho interessante observar a atuação do Fabrício na mídia, porque, além de ele ser um grande escritor, sabe fazer o marketing de si mesmo e se manter em evidência. E se utiliza de várias ferramentas tecnológicas, como blogs, twitter, etc, que lhe conferem visibilidade. Não adianta, com toda a gama de livros sendo lançados todos os dias, não basta ser bom , é preciso estar na vitrine se quiser que seus livros vendam. Quantos ótimos escritores a gente nem sabe que existe? Ponto para quem aposta em assessoria de imprensa ou desempenha bem esse papel, como é o caso do Carpinejar. Ele criou um personagem dele mesmo, uma imagem que chama a atenção e instiga a que as pessoas tenham curiosidade a respeito do que ele escreve ou tem a dizer. Pelo menos comigo foi assim e posso dizer que me surpreendi positivamente. É uma pessoa inteligentíssima, tem um raciocínio muito rápido e constrói as idéias de forma inusitada, deixando-nos sempre com algum questionamento, um ponto a refletir. Quem já conversou com o Fabrício ou leu algo dele sabe do que estou falando.
Hoje em dia compro tudo que ele lança, pois sei que a linguagem, a forma de dizer as coisas virão revestidas de subjetivismo, jamais serão lugar-comum, mas, ao mesmo tempo, permitirão uma identificação do leitor por tratar de temas do cotidiano.
Não li Mulher Perdigueira ainda, mas quando o fizer, conto por aqui.
Ah, e por falar nisso, outra coisa que favorece o escritor: o boca a boca é a melhor propaganda.

domingo, 20 de junho de 2010

O Casaco do Dunga


Em tempos de Copa do Mundo, todo mundo emitindo opinião, resolvi dar meu pitaco. Não sobre futebol, que ninguém deve falar do que não sabe.
A gente está cansado de saber que gosto não se discute. Cada um usa o que quer, embora a moda esteja aí, impondo suas regras. Ainda assim, não é unânime. A exemplo disso, o casaco que o Dunga vestiu na estreia do Brasil na Copa. O povo do esporte todo malhando, Dunga cafona, contrata alguém para ajudar a te vestir; o povo da moda dizendo que ele é o técnico mais fashion. E na geral, todo mundo palpitando de um lado e de outro. Vai entender!
O cúmulo que ouvi foi de uma advogada, que visivelmente não entende nada de moda, a considerar o jeito que ela se veste, que “o casaco do Dunga era ridículo, até os nossos presos se vestem melhor!” Coitada, essa deve achar que Herchovitch é marca de xarope.
Particularmente, eu adorei o casaco do Dunga. Não só porque é um legítimo Alexandre Herchovitch, mas porque me remete ao Pequeno Príncipe nos conduzindo com sabedoria sobre os planetas-países que se perfilam até a final.
Admito, gosto do Dunga. Pronto falei. Podem me criticar, mas admiro a seriedade e a garra que ele põe no que faz. Passa a idéia de uma pessoa íntegra, dedicada, batalhadora, e, para mim, isso é motivo de orgulho. Se o casaco dele é bonito ou não, se combina com a ocasião, é o que menos importa.
O mais interessante nisso tudo é essa diversidade de opiniões. Ele pode vestir o que for que jamais vai agradar todo mundo. Daí que o importante é a pessoa se sentir bem consigo mesmo, o jeito de se vestir, atitudes, modo de pensar. Olhe para você, se o que vê não é motivo de orgulho, está na hora de rever seus conceitos. Reinvente-se, assuma o que lhe agrada, livre-se do que não lhe é natural. Quando a gente gosta de si, as críticas são recebidas como afagos no ego.Deve ser assim que o Dunga pensa: falem de mim!

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Troca de bebês

Fiquei chocada com a notícia de dois bebês que foram trocados na maternidade e agora, depois de um ano e pouco, as famílias desfizeram a troca.
Como assim desfizeram a troca? Então não amaram aquela criança como se fosse seu filho por todo esse tempo para agora descobrir que não tem o seu sangue e então destrocar? E não estamos falando de uma mercadoria, estamos falando de dois bebês, que conhecem e amam aquela mãe que os criava, toda a sua referência familiar era aquela e, de repente, muda tudo.
Não consigo nem imaginar a dor dessa "destroca", digo até que é mais traumática que a troca inicial. Posso estar errada, mas pai/mãe é quem cria. Como é que se "destroca" um filho, alguém me responda. Se dependesse de mim, não sei se conseguiria. Depois de amar meu bebê, como entregá-lo e amar outro em seu lugar? Num caso desses, acho que o sangue é o que menos conta.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Maria Luisa

A história de Maria Luisa é breve como sua existência. Na inocência de seu um aninho e pouco, com a boca ainda vermelha dos comprimidos de sulfato ferroso que ingerira pensando que fossem balinhas, disse sorrindo para a mamãe que tinha “papado tudo”.
A mãe de Maria Luiza, na inexperiência de seus vinte anos, perguntou para a avó da menina se fazia mal que esta tinha tomado, pelos seus cálculos, quase meio vidro dos comprimidos, e a avó, apavorada, aconselhou que a levasse ao hospital.
Por fim, a mãe-menina levou a filha no posto de saúde mais próximo, para fazer mais rápido.
A enfermeira vestida de branco passou-se por médica aos olhos da inexperiente mãe, que sequer questionou quando aquela, sem nem examinar a menina, mandou-a de volta para casa, recomendando que desse suco de gelatina para a criança, que esta apenas teria uma dorzinha de barriga, nada demais.
De fato, a pequena começou a queixar-se de dor de barriga, passada uma hora da ingestão, dor essa que foi aumentando a ponto de fazer a menina se contorcer e chorar muito.
Decidiram levá-la ao pronto socorro da cidade, onde no caminho a menina desmaiou de dor, mas, na verdade, chegara ao hospital em coma. A correria foi grande para tentar salvar Maria Luisa, pois a medicação já tinha sido absorvida pelo organismo. Chegou a ser removida a Porto Alegre, porém não resistiu à gravidade de seu quadro, vindo a falecer no dia seguinte.
A história de Maria Luisa chegou até mim hoje por meio de um processo criminal contra a enfermeira. À dor da mãe juntou-se a minha e quase não consegui fazer as perguntas pelas lágrimas que me caiam dos olhos e o nó que eu tinha na garganta.
Errou a mãe que não percebeu a filha tomando a medicação, enquanto fazia o almoço. Mas poderíamos dizer que errou ao confiar na pessoa de avental branco que a atendeu? Seria correto exigir-lhe que não confiasse?
Errou a enfermeira que não encaminhou o caso com urgência ao médico plantonista, subestimando os efeitos de uma intoxicação por sulfato ferroso. Estaria ela com excesso de trabalho? Queria provar conhecimento?
A resposta para essa sucessão de erros é que Maria Luisa pagou com a vida. Com a sua e com um pedaço da de sua mãe, pai, avó, familiares. Até de mim, que nem a conhecia, arrancou um pedacinho hoje.
A natureza devia ter permitido sete vida às crianças, como garantia de protegê-las de sua curiosidade e inocência, mas, acima de tudo, dos erros e omissões dos adultos, seus descuidos e falta de atenção pelo excesso de tarefas ou seja lá por que motivo for.
Deus deve ter as suas razões para ter levado esse anjinho tão cedo. Se foi para nos ensinar, simbora todo mundo fazer a lição de casa: tirar os remédios, produtos e utensílios perigosos do alcance das crianças; ainda assim, não pregar o olho delas quando estiverem sob nossos cuidados; se você não é médico, não se meta no que você não está preparado para resolver, chame o médico. Se desconfiou, busque uma segunda opinião. Pode parecer pouco, mas também pode ser a diferença de ter seu filho vivo ou não.
Maria Luisa, pelo menos para mim e para todos que conheceram sua história, tenho certeza, não foi em vão.

terça-feira, 9 de março de 2010

Big Brother, por que não?


Engraçado, nessa minha vida de mãe em licença maternidade viciei em novela e Big Brother. Explico. Fiquei um tempão no litoral em janeiro e fevereiro e só pegava a Globo. A falta de alternativa me fez acompanhar esses dois programas em particular.
A novela me prendeu por causa da história da Luciana e do Jorge, adoro um romance. Já o Big Brother, pelas relações humanas, os conflitos, as intrigas, os conchavos, as reações. É claro que tem muita futilidade também, conversas sobre corpo, malhação, lipo, silicone, festas, etc. Mas o que me chama a atenção são os comportamentos dessas pessoas e como reagem entre si e diante de determinadas situações, causando, em quem assiste vários sentimentos antagônicos: amor, ódio, raiva, simpatia, antipatia. Já critiquei muito o programa, mas aprendi a vê-lo por esse novo ângulo e recomendo.
Deve ser efeito da idade isso de rever os conceitos. De uns tempos para cá, tenho tentado ser menos excludente, e procurado ver as coisas e as pessoas por um outro ângulo, procurando o lado positivo de tudo e sabe que tenho aprendido coisas interessantes? Vale a pena tentar conhecer melhor principalmente as pessoas antes de decidir que elas não servem para nosso convívio. Todo mundo tem algo de bom. Se não, pelo menos teremos aprendido um pouco mais sobre relações humanas.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Reparando os estragos

Estou comprovando na pele o que a falta de sono faz. Eu já tinha lido que ela prejudica a pessoa em muita coisa, mas principalmente na memória e na criatividade. É vero! Ando mais esquecida do que jamais fui e minha criatividade está a zero. Basta ver minha produção literária, que anda parada, parada. Desculpem aqueles que gostam do que escrevo.
Esquecida eu sempre fui, mas a esse ponto, de não lembrar o que almocei ou o que falei ontem, não tinha me acontecido. Eu disse? Você me contou isso? Ou então repito a mesma história quinhentas vezes para a mesma pessoa. Caduquice total.
Certo, é natural, pois tive bebê e estou dispensando-lhe cuidados na madrugada. Tem quatro meses já que isso acontece e me pergunto que danos irreversíveis terei num futuro próximo. Mãe fisicamente padecendo no paraíso, porque, é claro, que não me arrependo de nada e todo esforço é com muito amor. Apenas estou catalogando as baixas.
Deu para notar também como a constância quanto à alimentação saudável e a prática de esportes fazem diferença a longo prazo. É que, durante a gravidez, me descuidei um pouco e acabei engordando dezessete quilos. E ainda fiquei os últimos três meses de cama, com risco de parto prematuro, e, assim impedida de qualquer exercício físico. Resultado: está muito difícil de voltar ao meu peso. Mais do que isso, de entrar em forma, pois estou sem pique nenhum para a malhação, logo eu que era toda atleta. Sinto-me com cem quilos acima do peso e não apenas com os oito que quero perder. A caminhada é difícil, a corrida parece algo inatingível. É como se tivesse que começar tudo do zero, que estivesse sem qualquer condicionamento. Comer pouco, ou saudável também é algo que parece que vai me matar – de fooome!
Não é nem questão de estética – a busca do corpo perfeito – mas de saúde mesmo, de sentir-se bem, de poder fazer as tarefas simples do dia a dia, como cuidar do meu bebê, por exemplo, sem se sentir tão exausta. É claro que, se eu fizer as pazes com o espelho, terei igualmente dado um passo na direção da reconquista da minha autoestima.
Se serve de alguma coisa a experiência de alguém, não abandonem a academia e os hábitos saudáveis, logo ali o corpo se ressente e reclama. Se não estiverem dispostos, diminuam o ritmo um dia ou dois, mas retomem assim que possível. Uma boa noite de sono, para quem pode, ajuda em todo o resto. Você fica mais disposto para malhar, para manter a dieta, para trabalhar, para criar, para o que te dá prazer.
Quero muito me encontrar com o que eu era antes, assim serei uma mulher completa, já que, como mãe, estou plenamente realizada. Os textos e minhas roupas tamanho 38 que me aguardem! Caber nelas significa retomar o controle, caber em mim mesma. Ando confusa na administração dos excessos.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

A graça do sem graça


(foto Gustavo Barreto)
O que eu gosto do litoral é poder deixar de lado as atribulações, formalidades e, principalmente, a produção diárias e adotar um estilo de vida mais simples.
O salto alto fica em Porto Alegre e, na praia, é substituído pelas rasteirinhas e chinelos. Os pés agradecem a pausa.
As roupas são leves e despojadas. Não pretendem impressionar, apenas proporcionar conforto.
Quase não pego o carro. Tão agradável poder caminhar algumas quadras até o mar, o armazém da esquina ou à pracinha central, para um crepe no palito. Até um salão de beleza da capital se instalou por lá, onde, andando, posso chagar e resolver as questões femininas que não podem esperar – depilação, por exemplo.
Acho uma pena que as pessoas na praia de Atlântida, onde freqüento, perdem uma oportunidade valiosa de adotar esse estilo mais simples. Há desfile de carros de luxo, estresse por uma vaga próxima à praia, alta produção, valendo o uso de brilhos, jóias, roupas de banho e óculos de grife, escovinha no cabelo, unhas pintadas. Pudera o salão de beleza da capital abrir em Atlântida no verão, com certeza não sobrevive de clientes com o pensamento como o meu.
Os condomínios de luxo são outra praga que se espalharam pelo litoral e que vão contra ao que aprecio. Selvas de pedra, muradas, geralmente bem longe do mar, com toda a infra-estrutura dentro do próprio condomínio – laguinho, piscina, campo de futebol, TV a cabo, etc. Tudo bem pela segurança, uma vez que a violência também tira férias no litoral, mas qual a diferença de ficar em Porto Alegre? Ora, dirão seus defensores, basta pegar o carro e ir até a beira da praia quando desejar. Fácil, sim. Para mim não serve.
Concordo que é bom ter opções de bons restaurantes, festas, shows, o que não significa produção. O menos é mais. Já não chegam as exigências que os compromissos profissionais e sociais recomendam, o ano todo ainda vamos adotar o mesmo comportamento na praia? Não eu.
Renuncio à pose e lanço mão do básico para tudo que for possível. Dou-me até o direito de distrair-me com leituras rasas e assistir ao Big Brother, por que não? - aproveitando que minha TV só pega a Globo. A alienação no período de férias não causa danos irremediáveis e, despindo-se de preconceitos, pode-se descobrir graça com coisas que a grande maioria das pessoas que nunca leu nenhum dos Clássicos, ou meia dúzia de livros(e nem quer) se diverte. A empáfia pode nos privar de experiências interessantes.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Crime e Castigo

Terminei finalmente de ler Crime e Castigo de Dostoiévski. Depois de várias pausas, retomei e, com algum esforço, consegui acabar.
Não é digamos uma leitura de férias, pois o livro é denso ao extremo, cansativo, cheio de detalhes. Conta a história de um rapaz que comete um duplo assassinato - ele mata uma velha agiota para roubar seus bens e acaba matando também a irmã que aparece no local - e depois vive um drama pscicológico devido ao sentimento de culpa e arrependimento. Tanto que não consegue usufruir do que rouba e acaba enterrando sob uma pedra em algum lugar em via pública.
O mérito da obra, na minha opinião, está justamente nos fluxos de consciência dos personagens, seus medos, desejos e apreensões. O leitor vive intensamente o drama e a loucura do assassino e o peso de seu ato e acaba até torcendo por ele, por verificar que, no fundo, não é má pessoa, é um doente que cometeu um erro fatal.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Viva o diferente!

O mais interessante de viajar, na minha opinião, é ter contato com a cultura do local, enriquecendo a si próprio com a experiência. Incrível que no Brasil pela sua imensidão, a cultura seja diferente de norte a sul. Estando eu de férias em Aracaju, estou me deliciando com essa diversidade: de comidas, de falas, de horários, de costumes.
A estranhamento já começa na chegada, com a falta do horário de verão. O dia termina cedo, pois anoitece às 6 da tarde. Em compensação, já desponta o sol por volta das 5 da manhã.
Aproveito para comer o que não temos no sul: caju direto do pé, amendoim cozido, cuscuz, dentre outras coisas e uma infinidade de sucos de frutas (cajá, umbu, graviola, mangaba, etc).
Me deleito também com a simpatia do nordestino (tão diferente de nós gaúchos sisudos), e seu jeito mole e cantado de falar. Aprendo novos vocábulos e expressões dessa terra.
A graça está em abrir-se, deixar-se levar e contaminar pelo outro, pelo diferente, sair da comodidade de nossos hábitos e experimentar o novo. Voltamos para casa enriquecidos e felizes. Pena que tem gente que tem preconceito e acha que só a sua cultura é que vale. Perde uma grande oportunidade de crescimento pessoal. E isso não se aplica só para viagens, mas para a vida. Temos muito a aprender com as pessoas.

Deixo vocês com a foto da bela árvore de natal de Aracaju, com a paisagem da cidade por trás.


foto Gustavo Barreto

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Crônica vencedora concurso Mario Quintana


(foto: google imagens)
Como eu estava devendo, publico hoje a crônica que ganhou terceiro lugar na categoria crônica no concurso Mario Quintana. Espero que gostem.

De cama

O repouso compulsório é desajeitado. Deixa a vaidade guardada nos armários.
O pijama assume a segunda pele. As pantufas são pesos arrastados pela casa.
Os cabelos não visitam o espelho.
A aparência é fútil comparada à da saúde que se pretende recuperar. Espera-se que a pessoa com quem dividimos a cama tenha essa mesma compreensão.
Nem todo mundo aceita um espantalho em roupas de dormir.
O repouso compulsório é demorado.
Diferente do ócio saudável das férias, esse precisa passar logo. Ser preenchido de qualquer modo. Mas pouca coisa passa durante a via crucis cama-banheiro-cama. De preferência com as cortinas fechadas para evitar a constatação de que o mundo lá fora não pára.
Os livros, o jornal, a tevê e a internet formam as contas do meu rosário.
O repouso compulsório é dependente.
Não sei se fiquei velha ou voltei a ser criança: alguém tem que fazer a maioria das coisas que eu fazia. Já que é assim, podiam também ler-me histórias. Ou apenas fazer-me companhia. É difícil enfrentar sozinha a teia de restrições médicas.
O repouso compulsório é dolorido
Esgotam-se as posições na cama; as costas pedirão trégua a qualquer momento.
Doem as articulações pelos programas perdidos; os músculos, pelos lugares a que não posso ir. Há uma estranha sensação de estar à margem.
Daqui, os velhos hábitos parecem diamantes.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Dramas


(foto: Gustavo Barreto)
Mais do que o temporal (ou tempestade) que se abateu sobre o Estado, duas outras notícias me sensibilizaram muito: a da mãe que esqueceu a filha de seis meses no carro e esta faleceu; e a da mãe solteira, soldado dos EUA que, designada para o Afeganistão, fugiu, pois não tinha quem cuidasse de seu bebê, o qual seria mandado para um abrigo. A mulher, ainda, acabou presa.
Eu imagino a angústia e o drama dessas duas mamães, a primeira, porque sofrendo a dor de perder a filha por ato seu, do qual vai se culpar o resto da vida; e a outra por ter que se separar do filhinho sem saber para onde este será mandado, ou se será bem cuidado.
Coloquei-me no lugar delas e me deu um aperto no peito tão grande que não pude evitar as lágrimas. Imaginei se ocorresse comigo e com meu bebê, acho que o desespero seria tão grande, tanta dor que não sei se daria para suportar.
Essa sou eu como mãe, vivendo todos os dramas das outras, rezando todos os dias para que Deus proteja meu filho das tragédias e que eu seja sempre capaz de cuidar dele.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Sobre os filmes "As Pontes de Madison" e "Divã"


Assisti ao filme “As Pontes de Madison”, com Clint Eastwood e Maryl Streep, onde a protagonista, Francesca, se apaixona por um fotógrafo da National Geographic que conhece durante os quatro dias em que o marido e filhos viajam. Apesar da paixão, ela opta por ficar com a família, mantendo em segredo o seu grande amor, que só é revelado aos filhos por meio de escritos deixados após sua morte.
Para mim, a grande sacada do filme ocorre quando Francesca se dá conta de que, se largar a família, não poderá viver intensamente seu amor, por causa do remorso e também por saber que a vida a dois não é um mar de rosas. Uma coisa é quatro dias de contos de fadas, fora da realidade, outra é a rotina, os compromissos e sacrifícios da vida de um casal. Ela opta por guardar aqueles momentos idealizados na lembrança e seguir a vida que tinha antes.
Acho que ela está certa. O segredo da vida a dois está em encontrar na cumplicidade e nos pequenos detalhes, os elementos que nos fazem felizes. As pessoas acostumaram-se a banalizar as separações e qualquer coisa é motivo para acabar um relacionamento. Eu acho muito cansativo viver na corda bamba e correndo constantemente atrás da adrenalina, do frio no estômago das novas relações. Prefiro “a sorte de um amor tranquilo.”
Talvez por isso as pessoas se separem e continuem frustradas, desencontradas, pulando de galho em galho.



No filme “Divã”, baseado no romance de Martha Medeiros, a personagem vivida por Lília Cabral, resolve fazer análise para passar a vida a limpo e decide se separar para fugir da mesmice do casamento. Não que não amasse o marido, mas queria o tal frio na barriga. Depois de envolver-se com caras mais jovens, sofrer desilusões amorosas, perder uma amiga para o câncer, ela revê seus valores e dá-se conta, tarde demais, que seu casamento não precisava ter acabado, apenas precisava de alguns ajustes.
E por que será que só nos damos conta dessas coisas, quando olhamos de fora, depois de passar por uma situação de perda, de fim de relacionamento? Quando se está na relação, sentimo-nos sufocados, incapazes de raciocinar?
A gente precisava ter mais poder de abstração, de ver por outro ângulo, de se colocar no lugar do outro. Enxergar as coisas lá na frente, vivenciar hipoteticamente o “ e se eu...” Mas não, a gente tem que estragar tudo que construiu, machucar o outro e a si mesmo, ver como é. As terapias deviam ajudar as pessoas a viver e a resolver seus problemas hipoteticamente, sem necessidade de “pagar para ver” ou de “viver para crer”. Aliás, esse é o grande mérito da literatura, de permitir que a gente viva a vida dos outros, suas vitórias e derrotas e depois volte para a sua, com outra percepção e, quem sabe, sem precisar cair para saber que dói o tombo.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Sol ou não-sol

(fonte: google imagens)
O dia está lindo, com um sol delicioso. Dá vontade de se atirar e ficar lagarteando.
Sol no inverno é de gripe, diria minha avó. Xô, gripe nem pensar! Já tive a minha esse ano, não era a gripe A, Graças a Deus, ou talvez eu não estivesse mais aqui no convívio de vocês. Sim, porque essa gripe nova pegou as grávidas sem aviso prévio, e a gente nem sabia direito o que estava acontecendo ou como agir.
A médica que acompanha meu pré-natal mandou eu pegar sol no mamilo, sabe? Para deixar ele mais resistente para a amamentação. Dilema. Amo sol, mas depois dos 30 tenho fugido dele (ops, entregando a idade), ou tomado com muita moderação, nos horários certos, por causa do envelhecimento da pele, radicais livres, câncer e tudo o mais. Bronzeamento artificial, então, nem me pagando! Vocês viram as recentes notícias de que está comprovado que as tais lâmpadas causam câncer de pele? Parece inclusive que a ANVISA vai proibir o uso do equipamento. Para mim, não muda nada. Abandonei essa prática há anos, porém os adeptos devem tomar cuidado.
Eis que, assistindo uma entrevista na TVCOM, um médico falava à Tania Carvalho que o sol não é o vilão da história. Pelo contrário, as pessoas estão adoecendo por falta de sol. Todos já devem ter ouvido falar que o sol é importante por causa do cálcio que fornece ao nosso organismo. Então, que todos precisam de uma dose de sol por dia para repor esse elemento. Só que com a história de que o sol faz mal, a gente tem fugido dele como diabo da cruz, ou se enchido de camadas de protetor solar 150 para a exposição. E daí que o corpo acaba sofrendo com outros problemas pela falta de sol.
Confesso que fiquei meio chocada com a informação de que o filtro solar filtra também os benefícios do sol no organismo. Não sou especialista para contrariar, mas me pergunto: será?
De qualquer modo, vale sempre a regra do bom senso. O excesso faz mal. Ou seja: deveríamos nos entregar, se possível, a um solzinho, cedo da manhã, por alguns minutos, sem protetor solar, só para absorver o que ele tem de benéfico. Pode ser durante uma caminhada antes do trabalho, ou apenas enquanto você lê o jornal na varanda. Mas é aquele sol fraquinho, viu? Aquele que parece que não dá nada, que nem bronzeia. Aos poucos, a gente vai perdendo a palidez do inverno. Se não, pelo menos vai nos deixar mais animados e bem-humorados. E, desse efeito, ninguém duvida, certo?

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Falando sério

Esse texto eu escrevi em função do meu trabalho e da revolta que dá pela pilantragem que a gente vê no dia a dia e que desanimam qualquer um. Isso que, quando escrevi, ainda não tinha sido apresentada a ação civil pública por improbidade do MPF contra a governadora e outros políticos de peso aqui no RS. Mas é só trocar senado por governo estadual e o sentido permanece o mesmo. Boa reflexão!

Quanto mais conheço os homens mais admiro os animais


Essa celebre frase, atribuída a Herculano, reflete bem o sentimento de indignação que nos assola quando nos deparamos com pessoas que tentam tirar vantagem à custa alheia. Nosso país está cheio de exemplos. Os mais recentes trazem o Senado como palco de uma série de falcatruas não explicadas, farra das passagens aéreas e deputado dono de castelo.
Tem mais.
Só para lembrar, ano passado, revoltamo-nos com os espertinhos que se aproveitavam da solidariedade alheia na tragédia da enchente em Santa Catarina, furtando e desviando os donativos dos centros de distribuição. Imagens flagraram soldados do exército e voluntários saindo com as mochilas recheadas, passando a perna em toda uma população bem intencionada que se engajou na mobilização nacional. Outras cenas mostraram um mercado saqueado e pessoas vendendo água mineral a preços exorbitantes, aproveitando-se da escassez de água potável.
Outro exemplo: Dois malotes do Banco Banese de Aracaju, em Sergipe, caíram de um avião tempos atrás e, para completar o inusitado da situação, apenas um malote foi encontrado por um senhor desempregado, de 65 anos, que, como só ia acontecer num caso desses, estava amarrando seu burro num terreno baldio, quando encontrou o malote contendo R$95 mil. Mais. O senhor devolveu o dinheiro na Delegacia de Polícia, que foi restituído ao banco. O outro malote não foi localizado.
A par da discussão se “dinheiro cai ou não do céu”, que a notícia ensejou, levantando suspeitas se foi acidente ou proposital, o que mais se discutia nas ruas de Aracaju era a atitude do Sr. João Jacinto Ferreira em devolver o dinheiro. Inúmeras pessoas criticavam-no, chamando-o de “otário”, “burro”, por ter devolvido, ao invés de se apropriar dele e sumir.
Espera aí, só um pouquinho! Honestidade não vale mais nada nesse país? Quem é honesto é taxado de “otário” e de “burro”? Certamente os que pensam assim são os mesmos que usam a cota de passagens para os amigos, furtam os donativos dos necessitados, saqueiam supermercados sem vigilância.
Eu gostaria de entender em que ponto a humanidade se perdeu, e a total ausência de valores passou a gerir os comportamentos. Prolifera uma minoria de mentalidade contaminada, que busca levar vantagem em tudo e ri da cara dos honestos. Acham-se os “espertos” e, na primeira oportunidade, não perderiam tempo em garantir o seu.
Daí porque não me comovo com a situação dos réus nas audiências criminais. Pode vir dizer que “está arrependido, que os filhos estão sofrendo, que o Presídio Central não é lugar nem para bicho, que praticou o crime porque estava drogado, que se ganhar a liberdade, só quer trabalhar e tocar sua vida”. É mesmo? Só lembraram disso agora? Aí, então, a Promotora de Justiça que é má. É esse tipo de gente que, na primeira oportunidade, está fazendo tudo de novo, é o mesmo caráter dos que querem tirar vantagem da boa vontade alheia, porém potencializada pela violência. E como exigir comportamento diferente, se para todos os lados que olhamos, pessoas de todas as classes se encarregam de dar o “exemplo”?
Não, não é questão de ter perdido a capacidade de me indignar. Pelo contrário, de tanto ver essas barbaridades, já não acredito no ser humano, nem me comovo com cara de réu se fazendo de coitadinho. Até prova em contrário, o ser humano é mau, e os exemplos acima reforçam a tese. É tudo questão de ter oportunidade ou não.
Deve haver um jeito de reverter essa condescendência com a malandragem e substituir pelos protestos e pedidos de providências, que tenho visto ultimamente com relação às práticas do Senado ou como foi no caso do desvio dos donativos. Todo mundo pagou seus impostos, ajudou os flagelados, então todos se sentiram lesados e reclamaram. Só que se a vítima não é a gente, cadê a indignação? Cadê o “vamos apurar e punir os responsáveis?” Quando o cisco é no olho do vizinho, a maioria não se importa. Logo esquecem da vítima assaltada, morta, prejudicada, e só lembram do “coitado do réu, entupindo o presídio, depósito de gente, cadê os direitos humanos?” E para ajudar, Juízes, ditos alternativos, contribuindo com a impunidade, deixando de expedir mandado de prisão de condenados ou permitindo que cumpram prisão em casa.
O único “louco” remando contra a maré, que ainda insiste em lutar, seja por dever legal, indignação ou íntima convicção, parece ser o Promotor de Justiça: brigando por uma condenação, para manter a prisão preventiva, pelo cumprimento da lei, enquanto muitos com certeza nos apontam pelas costas e nos chamam de “otários” e “burros”, por acharmos que ainda temos alguma coisa de valor para resgatar nesse país. “Vamos diminuir as prerrogativas desses descontrolados, precisamos contê-los, eles não sabem o que fazem, quem guardará os guardas?” E tome Lei da Mordaça e outros projetos de leis tentando limitar o Ministério Público.
A vigarice generalizada constitui tendência e revela a total inversão de valores ou falta deles, chamem como quiser. Os Promotores Criminais são psicologicamente afetados, aliás, mereciam adicional de insalubridade pelo contato direto com a escória da sociedade, o que acaba acentuando sua insensibilidade e descrença no ser humano, deixando o romantismo de lado no seu modo de ver o mundo. Sem falar no risco pessoal que correm. Mas, como “loucos”, não se intimidam no cumprimento de seu dever.
Sigo na luta, sem esmorecer, indignada e cada vez mais descrente, cada vez estimando mais os animais.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Dias nublados e o humor


(foto de Gustavo Barreto)

Chega o inverno e com ele a sequência de dias frios, chuvosos, nublados, cinza. O inverno altera os hábitos e nos mantém dentro de casa por mais tempo. A quantidade de roupa é inversamente proporcional às opções de lazer ao ar livre. E para ajudar, ainda, a nova gripe.
Seríamos nós, gaúchos, a exemplo dos ingleses, mais mal-humorados por causa do clima? A Letícia Wierzchowski escreveu outro dia uma crônica sobre a timidez dos gaúchos, e comparou a nossa fila de cinema com a dos cariocas. Lá, carioca não tem conhecido, em cinco minutos todos são amigos. Aqui, é cada um na sua. As pessoas evitam de se olhar, quanto mais se cumprimentar.
É claro que o clima tem influência direta sobre nosso humor. Basta ver o que acontece com as pessoas quando começa a esquentar, as camadas de roupa diminuem e iniciam as debandadas ao litoral. Ficamos até mais sociáveis. Os parques e ruas lotam, as pessoas querem um lugar ao sol e talvez isso explique a nossa obsessão pelo astro-rei, levando-nos a horas e horas torrando em busca da cor perfeita. Afinal são só três meses de verão. Em contrapartida, quem já passou pelo ritual de tirar a roupa num banheiro gelado, para tomar banho no inverno, sabe que a cara fechada do gaúcho não é à toa.
Os que têm calor todo dia e andam com pouca roupa não entendem muito bem essa nossa obsessão pelo sol. Meus amigos que moram no nordeste têm pele mais clara que a minha. A praia é lugar de encontro, petiscos, cervejinha e ... guarda-sol. Se tiver se torrando no sol, pode contar que é turista. O povo local é naturalmente simpático, alegre, descontraído.
Mas o inverno tem vantagens que só ele traz: comer foundie, pinhão, tomar quentão, chocolate quente, cerveja bock, um vinho na frente da lareira. Usar botas, luvas, cachecol, casacões, ficamos tão elegantes. Demorar mais tempo na cama, assistir um filme, dormir de endredom, pijama felpudo, enfim, inverno é aconchego.
Temos nosso charme!


A crônica acima foi publicada (com cortes de edição) no blog do ZH Moinhos de hoje:

http://www.clicrbs.com.br/blog/jsp/default.jsp?uf=1&local=1&source=DYNAMIC,blog.BlogDataServer,getBlog&pg=1&template=3948.dwt&tp=§ion=Blogs&blog=455&tipo=1&coldir=1&topo=3951.dwt